Esse assunto é tão denso e complexo que merecia um vídeo de uma hora para ser destrinchado. Mas como tempo não dá em árvore, bora tratar em texto mesmo, tentando ser o mais objetiva possível. É assunto que eu SEMPRE quis falar por aqui, mas que hoje encontrei um gancho que me encheu de vontade de explorar a polêmica. Vamos à ela, então:

Lá na foto acima, o título de uma nota da coluna da Júlia Alves, do jornal Zero Hora, dessa semana (para quem é de fora, o adendo: a Júlia é a colunista social do jornal e circula muito entre festas e a galera que trabalha nelas). A postagem da Júlia partiu da fala da organizadora de eventos Neca Esbroglio, que tocou num tema mega, mas mega controverso mesmo no mundinho das festas: a cobrança de BV (bonificação por volume). Que é mais conhecida como comissão cobrada por alguns organizadores. Uma prática que, defendem uns, pesa no bolso dos noivos, que acabam pagando um valor inflacionado por todos ou alguns dos serviços contratados via organizador (as flores, a comida, as fotos, por exemplo).

Eu vou posar aqui nesse post de jornalista isenta e apresentar os fatos para que vocês julguem o que acham correto ou não. Mas, independente da sua opinião, vamos todos relembrar uma máxima da vida financeira?

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Traduzindo em miúdos a expressão maravilhosa do almoço grátis: se alguém está ganhando alguma coisa de graça ou por preço muito baixo, tem outra pessoa nos bastidores pagando o pato e arcando com o prejuízo. 

Ok, let’s go para os fatos:

COMO ASSIM, COBRAR COMISSÃO?

A comissão, que muitos consideram errado, é uma modalidade mais ou menos assim: o organizador indica que os noivos contratem um determinado florista. Em contato prévio com o florista, avisam: “Olha, eu estou te levando um casal de clientes para fechar contigo. Mas quero que você me dê uma comissão por estar te ajudando nesse negócio”. E daí acertam a bendita comissão, uma % que eu já vi variar de 10 a 40% (pode ser mais, pode ser menos – falo aqui do que já vi acontecer, mas meus olhinhos curiosos ainda não viram tudo nessa vida).

De onde vai sair essa graninha de comissão que o organizador vai levar por ter indicado um cliente? Do total pago pelos noivos. O florista terá que acrescer no preço final que cobraria, a porcentagem que terá que pagar ao organizador. Com isso, o que acontece? O preço fica mais alto, e como o cliente não sabe do acordo, nem desconfia que a coisa está inflacionada.

COBRAR COMISSÃO É ERRADO?

Vamos tentar analisar os dois lados? BV significa “bonificação por volume”. É uma prática que acontece não só no setor de festas, mas em vários segmentos do mercado. Na raiz da coisa, se baseia num contexto de parceria e confiança entre dois profissionais. Quando um consegue um cliente para o outro, cobra um pedaço do valor para “pagar” a sua indicação. Mas essa é a natureza do processo. Desde que o bendito nasceu, várias ramificações surgiram. Bora analisar os dois lados?

Quem defende o BV tem um argumento que, serei sincera, é bem “entendível”. Deve ser péssimo ser organizador de uma festa enorme e ter que trabalhar com um florista que não cumpre prazos, não entrega o que foi combinado. É bem melhor trabalhar com quem ele já conhece, sabe da índole, confia de olhos fechados. Quando os dois funcionam bem azeitadinhos, acabam criando um elo profissional e se ajudam: se a noiva apareceu no florista pedindo indicação de organizador, o florista aponta para o seu parceiro e vice-versa. Quando contratos são fechados via esse modelo de indicação, os profissionais trocam entre si suas porcentagens.

Quem é contra o BV justifica que as coisas costumam sair de controle dia sim, outro também. Que aquele acerto entre profissionais amigos tem extrapolado a ética, gerando aquela polêmica do artigo da Júlia. O que vem acontecendo bastante: os noivos começam a procurar um organizador e, de repente, encontram um que cobra muito barato. Muito menos que a média do mercado MESMO. Pensa comigo: ninguém que trabalhar quase de graça. De algum lugar vai ter que sair uma compensação financeira. E ela sai de onde? Da cobrança de uma comissão gorda em cima de cada um dos serviços que os noivos contrataram. O organizador pede um orçamento ao florista, coloca sua porcentagem em cima e esse bem bolado é repassado os noivos. Quando o pagamento é feito para o florista, ele tira a % do organizador e entrega a ele.

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BAH, MAS QUE BAITA SACANAGEM!

Sim e não, gente. Vamos com calma. É como eu disse: existem mil nuances em cima desse assunto. Existe o BV de boas, sim. É aquela parceria raiz entre profissionais que confiam um no outro e que já tem dentro do seu preço final aquela porcentagem de indicação. Uma porcentagem que não é um escândalo, que não leva noivos à falência, e que se baseia em anos de trabalho redondinho feito em dupla.

O “BV do mal” é essa prática que vem gerando indignação no mercado de eventos. E com toda razão. Parte de algumas pessoas que cobram um preço fixo muito baixo e que, nos bastidores, sai cobrando graninhas extras de todo fornecedor do casório para engordar o cofrinho. Vamos ensaiar uns números para deixar a coisa mais clara?

Digamos que você, amiga noiva, pesquisou 7 organizadores de casamentos. Todos cobraram um valor, sei lá, na média de R$ 10 mil para fazer a sua festa. Um valor fechado: por esses R$ 10 mil, te acompanham até o dia do casamento, mostram tudo que precisa ser contratado (do decorador ao doceiro), indica várias opções de profissionais para os noivos conhecerem, acompanha visitas, organiza a logística e (no caso dos organizadores gente boa), entende que casamento é caro e faz uma ginástica para ajudar os noivos a enquadrarem o que querem dentro do seu orçamento.

Aí, um belo dia, você descobre um organizador que cobra apenas R$ 1.500 para fazer sua festa. Bem mais baixo o valor, concorda? Esses R$ 1.500 mal cobrem a gasolina que a pessoa irá gastar durante um ano inteiro se deslocando de lá para cá ao acompanhar os noivos em mil visitas a salões, igrejas etc etc etc. É daí, normalmente (again: não vamos generalizar porque a gente não conhece as mil nuances do tema), sai de uma cobrança agressiva de BV a complementação da grana do organizador. Final da história: se no fim das contas o casório inteiro teria custado R$ 70 mil, acabou saindo R$ 90 mil somando tudo de comissão que o bendito profissional meteu ao longo do caminho.

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TEM COMO SE DEFENDER?

Claro que tem! Os noivos podem (e devem) perguntar para o organizador como é a modalidade de trabalho dele (se cobra ou não comissão). Mas agora vem o babado: um bom profissional que cobra comissão irá explicar que ele tem um acordo com os parceiros que mais confia, onde um repassa determinada % para o outro, mas que esse valor já está dentro do preço normal (não é um extra escandaloso jogado em cima).

Deu para entender? Mais uma rodada de exemplos e valores hipotéticos:

Gabizinha é organizadora e cobra R$ 5 mil fixo. Ela é amiga da Mariazinha, florista, e adora o trabalho dela. As duas tentam sempre estar juntas, pois são azeitadinhas, confiam de olhos fechados nas entregas. Se Gabizinha indicar a Mariazinha para um casal, Mariazinha vai fazer seu orçamento de flores normal e vai TIRAR dele uma comissão para Gabizinha. A florista vai ganhar um pouco a menos, mas pelo volume de indicações que a Gabizinha faz a ela, a coisa acaba compensando. Deu para captar e entender que nem toda comissão é maligna?

Como disse o Nelson Quinto na matéria da Júlia: o negócio é transparência. Ninguém gosta de ser enganado. Eu detestaria saber que as flores da minha festa custariam R$ 20 mil, mas que paguei R$ 25 sem saber que tinham R$ 5 mil escondidos no valor que seriam repassados para quem está organizando a minha festa (pessoa essa que, vamos combinar, eu JÁ ESTOU PAGANDO para me auxiliar).

E O LADO DE QUEM PAGA O BV?

Ah, as tais nuances…vamos a mais uma delas. O Brasil está em crise, gente. 2016 e 2017 foram anos péssimos para o mercado de eventos. Os casamentos ou foram adiados ou diminuíram consideravelmente de tamanho. Todo mundo teve que apertar o cinto, baixar valor, negociar horrores com os noivos para fazer negócio. A florista Mariazinha, por exemplo, recebeu a ligação de um organizador pedindo um orçamento de flores para uma determinada festa. Mariazinha foi lá, rebolou horrores para chegar em um valor bom, já que a crise estava pegando e precisava fechar contratos. Passou para o organizador: “faço por R$ 20 mil”. Aí o organizador diz: “olha, mas tem a minha comissão, viu? Bota mais R$ 5 mi aí em cima”. Mariazinha coloca, já sabendo que em tempos de apertar o cinto, os noivos iriam chorar pedindo desconto. E esse desconto sai de onde? Da comissão é que não sai, não. O organizador já disse quanto quer ganhar, e isso não muda. Os descontos vão ter que sair lá dos custos da Mariazinha, que vai ter que fazer um novo rebolado para baixar preço.

Nesses anos de crise, teve muita gente fechando contratos com preço muito menor para poder manter a empresa aberta. Naquela festa hipotética do parágrafo anterior, Mariazinha acabou fechando com os noivos o pagamento de R$ 15 mil. Ela teria custos de R$ 8 mil com a compra de flores, pagamento de funcionários, transporte e etc. Some esses R$ 8 mil mortos para a Mariazinha com os R$ 5 mil que da comissão do organizador, sobraram só R$ 2 mil de lucro. Tenso, né?

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CONSIDERAÇÕES FINAIS (isso tá parecendo trabalho de conclusão de curso):

Como em todos os segmentos de negócios, no mercado de eventos também tem gente boa e tem gente com má intenção. Alguns têm seus acertos de comissão de forma que não pesa no bolso dos noivos e que são muito transparentes. Outros metem a faca sem piedade. O ruim de ter gente de má índole nesse meio é que eles acabam contaminando toda a roda que faz uma festa girar. Muitos dos bons acabam perdendo contratos para profissionais que vão nessa onda de cobrar um fixo muito baratinho que é engordado às escuras.

Peço perdão aos floristas por ter tomado vocês como exemplo, mas como o preço das flores de uma festa varia bastante, foi uma área que me permitiu explicar com valores hipotéticos o que ocorre nesse meio.

Espero que tenha conseguido traduzir num texto de blog (que deveria ser um vídeo de uma hora), um pouco do que anda causando bafafá no mercado de eventos. Vou ser mega chata e repetir: essa história tem muitos lados. Apenas alguns estão retratados aqui.

Meus sentimentos a todos os profissionais que já perderam contratos para alguns carniceiros do mercado. E sentimentos mais profundos ainda a todos os casais que acabaram desembolsando mais grana do que deveriam por ter ido na cola de gente escorregadia.