Se o Luan chegar cantando em seu novo clube, sugiro que cante: “E o olhar da Ellen Saraiva na porta eu deixei chorando a me abençoar”. Lá se vai mais um jogador de alta qualidade para fora do Brasil. Não é de hoje que não temos mais a menor condição de segurar os nossos filhos sedentos por realização, sucesso e dinheiro dentro da nossa casa. O futebol brasileiro virou o Francisco, porém com bem mais que dois filhos. A consequências dessas precoces partidas é que sofremos com a falta de craques. Futebol meio pau/meio tijolo, com pouquíssimos jogadores diferenciados que duram no máximo duas temporadas de alto rendimento jogando por aqui. Ficam até que alguém venha e NHOC: leve nossos pequenos, a quem formamos no barro jogando os campeonatos estaduais (esse aqui é o ovo cru do futebol e acontece no país todo).

Esse fenômeno da revoada dos passarinhos que querem voar vem acontecendo cada vez mais cedo na vida dos jogadores. Já já veremos pré-contratos com o Barcelona sendo assinados em nome de embriões que ainda nem foram fecundados (nesse caso, me coloco à disposição do clube Catalão). Vinícius Júnior, do Flamengo, foi pego pelo Real Madrid ali, saindo da creche. Philippe Coutinho estava jogando tazos e vendo Bambuluá quando foi levado pela Internazionale. Eu com 16 anos estava me atirando no fosso do Olímpico e eles lá, com o futuro decidido. Pensando por esse lado, tivemos sorte de contar com o Luan até agora. Aos 24 anos ele é praticamente um profissional de meia idade em um cruel mundo onde Zé Roberto, jogando aos 43 anos, é a exceção e chamado, VEJA BEM, de vovô tendo menos de dez anos a mais que eu (aqui bateu uma bad). Mal temos tempo de aproveitar nossos jogadores.

Eles sempre vão embora, e sempre irão. Enquanto não tivermos o dinheiro, a organização e a relevância do futebol europeu vai ser assim. Deixamos de ser o país do futebol para sermos tão somente fornecedor de craques, e isso é um tanto quanto triste. Aceitamos porque não temos o que fazer, eles vão embora. Sofreremos sempre com a partida de cada um deles, também não podemos evitar esse sentimento. Continuaremos aqui, apostando todas as nossas fichas de orelhão nos nossos novos craques, mesmo sabendo que em seguida vão ser felizes em outro lugar. A síndrome de vira-lata é tanta que sentimos até uma ponta de orgulho disso. Esse nosso altruísmo (mesmo que involuntário) só pode ser comparado com o altruísmo das mães e, cá entre nós, é o que somos nesse sentido.

Não criamos jogadores para nós, criamos para o mundo.