Escrevo aos prantos. Escrevo destruída. Mas escrever sobre as minhas perdas, meus sentimentos mais latentes, pelo menos pra mim, sempre foi uma forma de colocar para fora o que me consome por dentro.  É o que está acontecendo agora.

Acabei de ouvir na Rádio Gaúcha que morreu meu segundo pai, meu amigo, meu parceiro, meu padrinho de casamento. O cara que mais me ajudou na minha carreira. Um cara exemplar, amigo de todos. Meu paizão. Meu paizão.

Para quem conheceu o Wianey Carlet e para quem não conheceu também, espero honrar com essas palavras a grande pessoa que ele foi e sempre será.

Wianey era jornalista esportivo com décadas de experiência. No ar e no papel era chamado de “azedinho” por causa do seu perfil brabinho, reclamão, famoso por arrumar umas brigas com torcedores, dirigentes de clubes e com os colegas de microfone. Quantas e quantas vezes eu ouvi de amigos um “como é que tu aguenta o Wianey”. E eu sempre respondia contando quem era o verdadeiro Wianey. Bem diferente daquele personagem ranzinza que incorporou para falar de futebol. Quando desligava o microfone a gente via quem era ele. Um cara simples, humilde, com o melhor dos corações. Um cara que ajudava todo mundo e arrancava risadas pelos corredores. Era querido por todos os colegas. E, para mim, era meu exemplo de profissional.

Me aproximei do Wianey em 2007. A Rádio Gaúcha tinha programas gravados nos sábados pela manhã e a direção decidiu lançar um programa ao vivo para acompanhar a agilidade das notícias do fim de semana. Formataram um programa leve, misto de esporte, jornalismo, mas de uma forma descontraída, como pede um sábado de manhã. Batizaram de Supersábado e precisavam de dois apresentadores que tivessem aquele perfil jornalístico/descolado. Ideal seria que fossem um homem e uma mulher. A direção da rádio escolheu o Wianey, figuraça conhecida da audiência. E decidiram fazer um teste comigo como parceira dele.

Eu era produtora da rádio. Trabalhava nos bastidores. Tinha pouquíssima experiência com microfone. Fazia reportagens, mas nunca tinha apresentado um programa. Fomos para o tal do teste. Simulamos como se estivéssemos no ar. E a sintonia foi absurda, imediata. Formamos uma dupla e tanto. Eu tremia como vara verde no primeiro programa. Que responsa: estava do lado de um ícone do jornalismo, que poderia me fazer parecer uma boba despreparada. Só de sentar do lado dele me dava calafrios. Mas o que o Wianey fez? Minutos antes do programa entrar no ar ele me disse o quanto eu era perfeita para a função. Como eu iria amar. Como seria bacana.

Com os passar das semanas, o Wianey apagou um pouco o seu brilho para me deixar brilhar. Me dava espaço igual, me dava dicas quando entrava o intervalo. O reconhecimento que ganhei durante os 7 anos apresentando o Supersábado todo fim de semana se deve a ele. O Wianey poderia ter me apagado. Poderia ter feito do Supersábado o “programa do Wianey”com participação mínima minha. E nunca foi o que aconteceu. Nunca. Éramos o Tata e a Pispirica (nossos apelidos carinhosos que, às vezes, escapavam no ar).

Depois de 7 anos eu pedi demissão para poder me dedicar a outros projetos. No dia do programa de despedida ele me disse, no ar, as palavras mais doces que eu já ouvi. Para todos os milhares de ouvintes entenderem. Nos abraçamos, choramos. E eu jamais deixei de ouvir o Supersábado para ter a companhia dele no meu rádio.

Para eventuais leitores que tenham a lembrança do Wianey como o “azedinho” do esporte, me permitam contar algumas histórias maravilhosas do cara que eu conheci.

De tempos em tempos o Supersábado era apresentado fora do estúdio, em outras cidades. Era só a gente entrar na van (eu, produtores, técnicos de áudio, motorista) que o Tata começava a cantar sua musiquinha tradicional das viagens. E puxava um coro de “todo mundo, todo mundo!”. Não tinha viagem ruim com ele. “Dona Chiquinha o seu gato deu 25 pirocadas na bunda do meu / Dona Chiquinha o seu gato deu 25 pirocadas na bunda do meu / Seu deu, fez muito bem / Piroca não mata ninguém”. Típico Tata.

Uma outra vez o Wianey estava organizando a carteira e tirou um monte de contas de luz. De rabo de olho comecei a espiar os valores e dava mais de R$ 1 mil. Perguntei se ele tinha uma fábrica em casa e ele, completamente humilde, me disse que pagava as contas de várias pessoas além das contas da casa dele. Coração grande, grande.

Convidei o Tata para ser meu padrinho de casamento. E convidei no ar, durante um programa. Ele aceitou feliz e foi lá aprontar no grande dia. Quando eu saio da igreja, com os padrinhos alinhados na escada, dá para ouvir no vídeo um grito de “finalmente desencalhou”. De quem será que era?

Certa vez eu passei pela maior tristeza da minha vida. Um problema de saúde envolvendo alguém querido. Chorei dias a fio. E em todos estes dias o Wianey me ligou para saber como eu estava. Em todos. 

O Wianey sabia que eu sou colorada fanática. Que ia aos jogos e ficava roendo as unhas. Certa vez ele me disse antes de uma partida que o Inter iria ganhar de 2×0. E ganhou. Daí eu passei a considerar ele um oráculo. Sempre antes de qualquer jogo eu ligava para ele em busca de boas previsões. Sempre acertava: se o Inter iria ganhar, se iria perder. Em 2008 o Inter jogava pela Sul-Americana e a coisa não andava muito boa em campo. Comecei a ligar para ele de dentro do estádio. Em pânico de torcedora. Ele dizia” “Te acalma, Pispirica, que vai dar. Tô com a minha bola de cristal aqui. Vai ter gol no finalzinho”. E teve. Na prorrogação. 

Eu poderia escrever infinitamente sobre as qualidades do ser humano Wianey. De como era querido e amado por seus colegas. E de como era amado por mim e pela minha família. Meus pais consideravam o Tata como meu benfeitor, que me impulsionou a carreira ao me deixar brilhar, sem essa de ofuscar a novata. A gente se divertiu muito. Esse vídeo abaixo mostra. Nosso produtor me flagrou dançando ABBA enquanto rolava o intervalo. O Wianey foi cúmplice da pegadinha. Olha a cara de blasé do rapaz.

Tenho eterna dívida contigo, Tata. E vou te amar e relembrar tua bondade todos os dias da minha vida. Fica em paz, paizão. Eu te amo.