Tive a sorte de conviver até meus 22 anos com a minha avó Adelina, mãe do meu pai. Ela foi, praticamente, a única avó que eu realmente conheci (meu avô paterno morreu quando meu pai tinha um ano, minha avó materna quando eu tinha apenas dois anos e meu avô materno quando eu ainda era bem pequena, por isso tenho raras lembranças dele).

A vó Adelina era absolutamente genial e positiva, o que a gente considerava um milagre diante da vida ralada que ela teve: perdeu o marido cedo e ficou com três crianças menores de 5 anos, poucos dias depois foi mordida por uma cobra e quase morreu, morava numa casa de chão batido que quase desmontava a cada temporal e nunca aprendeu a ler nem escrever.

Se não aprendeu nada na escola, aprendeu com a vida. E, de vez em quando, vinha com umas tiradas que pareciam coisa de filósofo ou de livro de autoajuda, quando nem existia livro de autoajuda. Uma dessas máximas da minha avó eu lembro sempre que passo por algum perrengue de vida:

“Minha filha, a gente não consegue nada novo na vida se segue apegado ao que é velho. Pensa assim: se tu está usando teus braços pra segurar algo com força, como é que vai abraçar outra coisa? Tem que largar o que está segurando, abrir os braços e pegar o que é novo”.

Ela me deu esse conselho quando eu reclamei de não estar lidando bem com o fim de um namoro. Até queria conhecer outras pessoas, mas estava tão apegada ao ex que não tinha vontade de sair, de fazer amigos, de me abrir para a vida. Ouvir aquelas palavras de uma pessoa tão sofrida e que tinha todos os motivos para lembrar das agruras todos os dias me deu um estalo. Me imaginei apertando o meu ex num abraço que não dava chance dele sair de perto de mim. E pensei em quantas coisas boas poderiam estar passando por mim e que eu não tinha como pegar porque meus braços estavam ocupados.

Levei essa máxima para a vida. Um “let it go” antes mesmo da musiquinha de Frozen aparecer. E gostei do gesto simbólico de abrir os braços e dizer em voz alta: “estou te deixando ir embora”. Já fiz isso com apegos por várias coisas que me prendiam a um passado bom ou ruim: sair de um emprego, me afastar de alguém que foi bacana, mas não era mais, de alguma raiva daquelas que não passam e só aumentam com o passar dos anos.

Eu estou à direita, de blusa vermelha e branca do Boston Celtics. Como se soubesse o que era basquete na época.

Lembranças de coisas que foram boas, mas que acabaram indo embora, impregnam na gente. Grudam e não tem jeito de desapegar. Parece que a gente passou por momentos tão intensos que quem adianta: não vai rolar deixar de lado. Mas o fato é: se passou, passou. Vale absorver o que aconteceu de bom ou de ruim, abrir os braços e espaço para pescar novas experiências. Do contrário, a gente morre apenas com aquelas experiências que não vão voltar e passa a vida remoendo um passado que ficou lá atrás.

Quando eu aprendi a escrever, o que mais queria era fazer um cartão pra minha avó. Escrevi do meu jeito tosco e corri pra entregar. Ela recebeu com todo amor e eu fiquei esperando a reação dela ao ler o que eu tinha escrito. Problema: ela era analfabeta. Quando é que uma criança vai entender que um adulto pode não saber ler? Naquele momento ela me pegou no colo e me explicou que não sabia ler e nem escrever. Que quando era pequena, as crianças trabalhavam ajudando os pais e às vezes não conseguiam ir para a escola. Me sentou no colo dela e disse:

“Sabe qual é a parte boa disso, Gabi? Tu vai ler pra mim. E vai me mostrar todas as letrinhas que tu aprendeu. Eu já vi que aqui tem um A de Adelina e outras letras que a vó reconhece do meu nome. Me conta quais são as outras?”. 

Não tive tempo de me sentir mal por ela. Mesmo pequena entendi que ela tinha escolhido ser feliz ao invés de choramingar por estar velhinha e não saber ler. Então peguei meu lápis e ensinei pra ela o que eram as vogais. E me senti a criança mais especial do mundo por ter a honra de ensinar uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Minha avó não se apegou ao passado difícil. Preferiu abrir os braços e deixar ele ir embora. Passou a vida abraçando coisas novas, como uma neta empolgada em ensinar a ler e escrever. Poderia ter fingido que entendeu meus rabiscos e chorar por dentro por não ter entendido nada. Mas optou por ser sincera, falar do passado sem dor e ter um momento feliz comigo. E sorriu genuinamente o tempo todo.

Vai pra frente do espelho e abre os braços. Fala em voz alta que está deixando um ressentimento ir embora. Coaches e cursos de programação neurolinguística ensinam isso. Mas a minha amada vó Adelina já sabia, desde sempre, que passado é bom pra agregar experiência. Não pra atrapalhar o presente e mascarar o futuro.

PS: lá em cima, eu com meu pai e minha avó no dia da minha formatura do segundo grau. Ela não viu ao vivo (só lá de cima) a minha formatura na faculdade.