(Na foto acima, Sant’Ana, o famoso torcedor do Grêmio, no jogo de despedida do time no Estádio Olímpico. Passou pelos torcedores com um cartaz onde lia-se “Adeus Olímpico”. Um gremista e tanto, apaixonado e grandioso).

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Por Vane Chaves

Eu precisaria comer muito arroz e feijão pelas próximas 12 encarnações, para estar a altura de escrever algo sobre Paulo Sant’Ana. Portanto, vou contar histórias baseadas em fatos reais. Afinal, Sant’Ana fala por si só.

Minha filha tinha uns 5 anos, quando dentro de uma livraria no aeroporto de Porto Alegre, ela resolveu empurrar um carrinho, num descuido meu. Quando olhei,  percebi que tinha um notebook dentro.
Corri pra trazer de volta, e uma voz rouca de um senhor atrás de nós diz assim:

 – Menina linda desse jeito, só pode ser gremista.

Ela:

– Não.  Sou colorada e corinthiana!

Gargalhada rouca. Era ninguém menos que Paulo Sant’Ana. O carrinho era dele.

Deu risada, pediu um beijo e comprou um pirulito pra ela. Um doce de pessoa. Gentil com todos que se aproximaram rindo da situação.

Sant’Ana nos ensinou a ler a Zero Hora de trás pra frente. Gênio da comunicação. Um poeta.

Mas o que ele mais fez com maestria, foi testar a paciência dos colorados. Não há meme de internet que se compare às cornetas diárias de Paulo Sant’Ana no Jornal do Almoço. Ele tripudiava (respeitosamente, claro) os colorados. A gente ia pro colégio calejado e afiado, porque depois de ouvir as cornetas dele, nada poderia ser mais sagaz e certeiro.

Em 1989, pra lembrar das mais memoráveis fanfarrices dele, apresentou o jornal vestido de baiana, após o Inter perder o titulo para o Bahia.

A roda virou, o Inter cresceu, ganhou tudo e após o GreNal de 2011, onde fomos campeões gaúchos, o time foi ao Jornal do Almoço dar entrevista. Andrezinho mancando, foi puxado pelo Sant’Ana pela mão. Ele dizia, inconformado: “Nós perdemos no GreNal para um MANCO!!! Um MANCO!! E mesmo manco é melhor do que qualquer um do meu time!”

Um louco. Como todo o gênio o é.

Na verdade, o que a gente queria mesmo, como colorado, era ter alguém torcendo por nós com tamanho afinco e genialidade. E acho que, no fundo no fundo, acreditamos que ele era imortal. Mas, quem duvida que seja, não é mesmo?

Certamente vai em paz, no dia do futebol e depois da vitória do seu Grêmio! E aqui, como modesta homenagem,  reproduzo um trecho de um dos seus textos geniais, publicado na ZH em 2011.

”  O homem deixa um pouco de ser feliz quando se torna responsável. É aí que ele percebe que tem de prestar contas. Quando menino, a gente não tem encargos, a vida é grátis e nem se imagina que um dia ela vai apresentar as prestações para serem pagas. Vê-se agora que seria bom voltar àquele tempo de criança quando a gente só brincava. E, se por acaso se precisasse de alguma coisa, ela nos era alcançada. Hoje, não, quando a gente precisa de alguma coisa, é a gente que tem de dar um jeito. E é muito difícil dar  um jeito na solidão.”