Por Vane Chaves

Eu gostaria de falar sobre futebol. Eu gostaria de falar sobre o gol legal aos 47, desenhado pela lambança de um auxiliar que achou ter visto impedimento e levantou a bandeirinha equivocadamente confundindo os jogadores do Luverdense.

“Apesar de ser mulher”  e nunca ter jogado futebol, eu sei o que é impedimento.  E não foi. A regra é clara, o Arnaldo confirmou. As rádios, a TV. Unanimidade: a defesa parou sem o juiz apitar, e fizemos o Gol. Ponto. Mas não falarei sobre esses aspectos infelizmente.

Eu tenho o hábito de seguir ouvindo rádio assim que termina os jogos. Gosto de ouvir as análises, as impressões  sobre o jogo, até porque no campo se perde muita coisa. E gosto principalmente de ouvir as entrevistas coletivas do departamento de futebol e do técnico. Gosto de analisar a comunicação. Acho que as pessoas falam muito sobre si na maneira como se expressam do que pelo que é propriamente dito. Pela voz a gente consegue captar emoções bem claras e nuances de insegurança, indignação, motivação ou desmotivação e por aí vai. Ontem não foi diferente.

Primeiro falou Roberto Melo, vice de futebol. Entrevista sonolenta, obviedades, o de sempre.

Entra o Guto. Nos cascos. Com razão, diga-se de passagem. Passou a semana inteira sendo fritado na imprensa desportiva. Teve comentarista sugerindo Dunga para substituí-lo. O cara sai de campo naquela adrenalina, pressionado, cabeça a mil.

A primeira pergunta veio de uma maneira nada gentil (e costumeira) de um repórter. O Guto deu no meio. Na hora eu escrevi no twitter: Guto vai dar gasolina pra imprensa incendiar.

E seguiu. A pergunta teve réplica, tréplica e o clima era visivelmente nada ameno.

A terceira pergunta veio da Kelly Costa, jornalista da RBS TV. A resposta do Guto começa com:

“Eu não vou fazer essa pergunta pra você, porque você é mulher e de repente não jogou futebol”.

O restante da frase não vem ao caso, uma vez que não muda o contexto do seu início. Guto fez algo muito, muito comum: um comentário machista. A partir daí, a internet veio abaixo. Apareceu gente rebatendo machismo agredindo Guto Ferreira pela forma física. Surgiram machistas aplaudindo e dizendo que ele não falou nada demais e que feminismo é mimimi. Teve sujeito dizendo que a partir dali apareceriam as vagabundas ofendidas pra reclamar do Guto.

Teve muito, mas MUITO oportunismo.

Mas vamos às minhas impressões.

Guto errou. Tanto assim, que imediatamente após a coletiva, dirigiu-se à Kelly e pediu desculpas. Achei bom. Viu que falou bobagem e se desculpou. A meu ver, só faltou um pedido público de desculpas. E ele fez isso agora de manhã, falando à SportTV.

Mas se ele pediu desculpas, por que não encerramos o assunto? Porque a gente precisa DEBATER. É debatendo que se combate. É debatendo que a sociedade evolui.

Acho que o porta-voz de uma instituição não pode de jeito algum dar declarações que propaguem discurso de ódio. Essa polvora não pode ser acesa. Quem tem um microfone na mão, há de ter muita, mas muita responsabilidade. Não apenas pelo que fala. Se pensarmos friamente, a maioria das mulheres realmente nunca jogou futebol. O que a gente pode repensar e multiplicar é: por que será que não jogamos? Somos fisicamente incapazes? Ou porque não temos espaço?

Esse debate não tem nada a ver com a pessoa do Guto Ferreira. Tem a ver com o que está por trás disso. E por trás disso está uma sociedade amplamente machista. E a “sociedade”, não é na terceira pessoa.
A sociedade somos nós. E nós somos machistas por uma construção social.

O debate fará a desconstrução e nos fará, por exemplo, torcer pelo futebol feminino com a mesma paixão que hoje temos pelo time principal (que é masculino).

Porém, é preciso trazer outro aspecto sobre os tipos que surgiram ontem depois deste episódio. Os aproveitadores. Eles estão obviamente por toda a parte. A diferença é que alguns trabalham na imprensa. A quantidade de repórter oportunista levantando a bandeira do feminismo, pra agredir o Guto é quase incalculável.

Primeiro: amigo, dá pra cá essa bandeira porque ela não é tua.

Segundo: não vi nenhum dos revoltados com o machismo do Guto, preocupados com o machismo dos veículos de comunicação que trabalham.

Só pra ilustrar um exemplo: há poucos dias, no progama de futebol mais ouvido no RS, um dos comentaristas fala sorridente:

“Fulano, o jogo do Inter ontem tava tão ruim, que como consolo, cada torcedor deveria ganhar uma mulher de acompanhante pra levar pra casa.”

Adivinhem o nome disso amigos? Começa com “MA” e termina com “CHISMO”.

Não li UMA linha a respeito. Uma crítica sequer.

Então, meus caros: não se aproveitem de um erro de alguém, pra usar um assunto tão sério em prol dos teus interesses. Isso é leviano.

Guto: se fosse eu a te entrevistar, responderia placidamente com:

” De fato nunca joguei futebol professor. E pelo que vi em campo, muitos dos teus jogadores também não.”