Por Vane Chaves

Eu vivo e gosto de futebol, desde muito cedo.

Crescer numa família, onde isso era completamente natural, é um privilégio, muito embora mascare um pouco a realidade fora dela.

Se hoje ainda existe preconceito, vocês tentem avaliar o que era uma menina gostar de futebol nos anos 80. Mas isso nunca foi um problema. Aliás, sequer era uma questão, tamanha a naturalidade do meu apreço pelo esporte e da convivência desde sempre.

Quando passei a frequentar o estádio, eu entendi (sem nenhum embasamento teórico feminista), que “no mundo real”, aquilo já não era assim tão normal. Comecei observando por exemplo, o cuidado exacerbado do meu tio e primo, que quando me levavam aos jogos, montavam um esquema de escolta. Um na frente, o outro atrás, me protegendo de algo que eu não sabia exatamente o que era. A impressão era de que eu precisava me esconder de alguém ou de alguma coisa.

Ir no banheiro? Só com escolta. Short? Nem pensar, olha os modos!

E só queria ver o jogo, pular e gritar.

A duras penas, a gente cresce e entende que estava apenas se escondendo do machismo. De gente que achava (e ainda acha) que futebol não é coisa pra mulher. Ir no estádio, menos ainda.

Felizmente as coisas mudaram, e numa luta diária, a gente tenta fazer o mundo entender, que lugar de mulher é, de fato, onde ela quiser.

Pula pra 2015.

Entro no estádio, para mais um jogo qualquer do ano, e me deparo antes do jogo começar, com um grupo de meninas atrás do gol, fantasiadas de “Cheerleaders”. Saia curta, meia até o joelho, cabelos esvoaçantes, hiper maquiadas e….balançando pompons (eu vou repetir: P-O-M-P-O-N-S ) enquanto protagonizavam – ou agonizavam – uma coreografia aeróbica um tanto quanto desordenada.

Imaginei que fosse alguma ação do clube (às vezes esse povo do marketing inventa umas paradas que a gente custa a entender né…). Não era. Era apenas um novo “atrativo” do estádio. Um entretenimento.

Tipo assim…o cabra tá lá fervendo de ódio daquela zaga miserável e dá uma contemplada nos pompons pra dar uma relaxada. Uma xingada no juiz, e um “vem balançar um pompom lá em casa, deusa”! (o “deusa” foi uma figura de linguagem, usada para substituir os termos mais chulos costumeiramente usados). E assim seguia. O jogo todo, cada tempo atrás de uma goleira, o ritual das mocinhas fantasiadas de “cheearleaders”

Pra quem não sabe, as Cheearleaders, são as chefes de torcidas, muito vistas no futebol americano.
Suponho que alguém, em alguma reunião produtiva da direção, em meio a uma Brainstorming, tenha sacado: E se a gente imitasse os gringos? Tem tudo pra dar certo, caras!

Só que não.

Foi péssimo. Foi de mau gosto, foi fora de contexto, foi cafona, foi machista e definitivamente NADA artístico. A mulher usada como figura decorativa, pode ainda funcionar na mente retrógrada da sociedade machista que estamos inseridos. Como entretenimento de um público misto, composto de homens, mulheres, bi, trans, gays, jovens, idosos, crianças…definitivamente NÃO.

E super importante esclarecer: nada contra as meninas que estavam lá fazendo algo para o qual foram contratadas. E mais: quer se vestir de “cheerleader”, enfermeira, salva-vidas sexy, bombeira, mulher gato, vai FIRME, amiga. Se joga do lustre! A gente é livre pra fazer o que quiser, com quem quiser, onde quiser.

Entretanto, quando uma instituição do E-S-P-O-R-T-E vende isso como atrativo para chamar público ao estádio, eu preciso lembrar que nem precisava o esforço. Basta jogar direitinho e com vontade. Afinal, D’Alessandro não balança pompons e a gente vai lá, toda prosa ver ele jogar.

Mas como eu adoro histórias com final feliz, a boa notícia é que as Cheerleaders não existem mais no Beira-Rio. Parece que foram embora, após a saída da nossa adorável última direção. (encontre a ironia na frase).

E que essas ideias estapafúrdias, não apareçam mais por lá.